8/12/2006
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Como lidar com a imprensa (1) - Marcos Marques, jornalista
Iniciamos nesta edição uma série de artigos que tratam da relação mídia-educação. Esta série tem dois objetivos:
1) oferecer elementos para a reflexão sobre como os meios de comunicação repercutem os assuntos da área educacional;
2) informar aos educadores, principalmente os mantenedores de estabelecimentos educacionais, sobre as formas de se ver, relacionar e estabelecer parâmetros de atuação com os profissionais da imprensa.
Acredito que, ao longo das publicações, os leitores estarão preparados para tomar medidas preventivas que visem evitar a circulação de informações contrárias aos interesses de um estabelecimento educacional, assim como para implementar instrumentos comunicativos que possibilitem a cada vez melhor divulgação da “marca” que simboliza o patrimônio de toda uma vida, quando não de toda uma trajetória familiar e empresarial. Para começo de conversa, considero ser pertinente traçar uma breve reflexão histórica sobre a prática jornalista, que como toda ação humana, tem uma formação específica, pertence a uma cultura determinada e se desenvolve com base num respectivo modo de produção material e simbólica. Ainda que correndo o risco de enfastiar os possíveis leitores destas tortuosas linhas, insisto que esta seja uma condição necessária para o bom aproveitamento das informações demandadas para uma relação proveitosa entre os setores da mídia e da educação. Então, vamos lá.
Uma profissão burguesa Boa parte da bibliografia localiza os predecessores dos jornalistas nos bravos viajantes que no final da Idade Média reportavam e comentavam os acontecimentos do dia nas feiras, mercados e cortes aristocráticas das cidades-estados que começavam a desenvolver seus burgos. Editores de livros, administradores de correios, negociantes e diplomatas foram os precursores dessa prática. Mas os primeiros a se especializarem foram os escritores correspondentes dos príncipes governantes das cidades imperiais. Donsbach (1987) localiza a primeira grande fonte de distribuição profissional e comercial de notícias para o público em geral na Veneza do século XVI, quando os “escritórios de aviso” passaram a reunir informações de todo tipo, copiavam e vendiam. Tudo ainda feito a mão! O exemplo foi seguido, em outros países da Europa, por grandes casas comerciais, com o difícil delineamento do que era correspondência particular ou informação pública. No entanto, com a invenção da “imprensa” pelo “alemão” Gutemberg, começavam a se esboçar as quatro características do jornalismo moderno: 1 – publicidade; 2 – atualidade; 3 – universalidade; 4 – periodicidade. Einkommende Zeitung, de Leipzig (1650), foi o primeiro jornal diário. E o primeiro a atingir uma tiragem invejável, pelo menos para os padrões da época, foi o Frankfurter Journal, com 1500 exemplares em 1680. Para a manutenção desse novo modo de produzir e distribuir informação, a chamada publicidade tornou-se necessária. O negócio da comunicação começava a tomar sentido na gênese do capitalismo, até que a partir do século XIX tornou-se possível “profissionalizar” o setor. Um dos mais destacados profissionais destes tempos heróicos, vale lembrar, foi o agitador político Karl Marx.
Luta pela liberdade Mas não só. A história da imprensa progride como a história da luta pela liberdade. Inventou-se a imprensa, inventou-se a censura. O caso mais famoso foi Index papal, de 1559, que proibia a circulação das idéias de Martin Lutero. Na Prússia, Frederico II, em 1784, legitimava a censura pelo seguinte princípio: “Um particular é incapaz de formar tal opinião porque não tem o pleno conhecimento das circunstâncias e dos motivos”. Engels, em 1839, ironizava: “Esses ataques do censor são sempre desagradáveis, mas também honrosos; o autor que chega aos trinta anos – ou o que escreve três livros – sem cortes do censor não vale nada”. Mas foi na Inglaterra que a luta pela liberdade ganha dimensão. Em 1649, um partido inglês defende: “Se um governo deseja atuar com justiça... será necessário escutar todas as vozes e opiniões. E isto só é possível com liberdade de imprensa”. Em 1695, o Parlamento da Inglaterra põe fim a qualquer tipo de censura. As declarações americanas (1776) e francesa (1789) seguiram o mesmo caminho. Thomas Jefferson deixa sua frase famosa: “Se eu pudesse decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, não vacilaria um instante em preferir o último”.
A formação necessária O jornalismo, portanto, vai se confundindo com o ideal democrático, com idéia de Estado-livre. Nesse sentido, torna-se cada vez mais importante o tratamento sobre a formação dos “operários” da comunicação, que devem somar habilidade individual e responsabilidade social. É aí que nascem as escolas de jornalismo, posteriormente as faculdades e tem-se a integração destas às universidades. Vale ressaltar que a obrigatoriedade do diploma não vige em todos os países. No entanto, mesmo onde há essa exceção, a formação exigida é sempre de nível muito alto e, cada vez mais, específica. Mais do que isso, exige-se do jornalista um compromisso ético pouco comum em outras profissões. Como afirma Barry Bingham, ex-presidente do International Press Institute: “Não se pode ter uma imprensa livre se ela se comporta irresponsavelmente. A idéia de que nossa missão seja tão alta que ninguém possa questionar nosso desempenho é ilógica”. Parte da opinião pública costuma identificar os jornalistas como intelectuais. Mas, ainda que se possa considerar alguns jornalistas como tais, a relação não é necessária. Talvez a melhor definição seja a de Schelsky: “intelectuais que informam”. Mas é preciso ressaltar que o exercício do jornalismo prende-se à divisão social do trabalho que impera no capitalismo, logo preso à uma estrutura de dominação que determina não só o seu resultado como também o seu modo de vida. Nesse sentido, a visão romântica do jovem Marx não se afigura como provável: “A primeira liberdade de imprensa é a que não constitui uma atividade comercial. O escritor que se degrada indo para um meio comercial merece como castigo, por uma falta interior de liberdade, a falta exterior de liberdade, a censura: ou, mais ainda, sua própria existência já é seu próprio castigo”. Não sejamos tão radicais. Sejamos realistas. O exercício da liberdade jornalística é determinado por seu lugar na sociedade de classes. É, portanto, sempre uma liberdade provisória e contraditória, logo, atravessada pelas dinâmicas inerentes de uma sociedade dividida e conflituosa. O jornalista, em geral, vende sua força de trabalho e, portanto, tem sua ação vinculada a um determinado empreendimento: a empresa jornalística.
O empresariamento da comunicação Em 1917, Lênin fez a seguinte caracterização: “A burguesia entende a liberdade de imprensa como a liberdade dos ricos publicar jornais. A usurpação da propriedade de imprensa pelos capitalistas praticamente em todos os países produziu a corrupção da imprensa”. O conservador alemão Paul Sethe não deixou por menos: “Como a produção de jornais e revistas requer cada vez mais capital, o grupo de pessoas com capacidade de publicar os órgãos de imprensa está se reduzindo constantemente. A liberdade de imprensa é a liberdade para duzentas pessoas endinheiradas difundirem suas opiniões... Livres são os ricos e, como os jornalistas não são ricos, também não são livres”. Como se pode ver, esquerda e direita se unem na crítica ao que se chama de “mercantilização” da imprensa, um processo corruptor inevitável e deplorável, que compromete o exercício de uma atividade considerada fundamental para a democracia. Acredito que a maior parte dos educadores não deixariam de assinar o seguinte trecho de Eduard Reich: “A redação de jornais, que é a profissão mais nobre e santa e merece ser altamente respeitada, tornou-se no entanto a profissão mais profana, graças aos empurrões e pressões de empresários insaciáveis e à vileza dos jornalistas, cujo trabalho vulgar e comercial é muito danoso para a saúde psíquica e moral do povo” Mais aqui é preciso um parêntese. Será que o processo de empresariamento da comunicação é necessariamente e absolutamente ruim? Será que pelo fato de não se poder mais atuar jornalisticamente fora de uma organização empresarial o resultado final da respectiva atividade estará sempre condenada à reprodução do que há de pior na sociedade?
Escola e Jornal: qual a diferença? Antes de qualquer resposta é preciso observar que há semelhanças enormes entre as críticas que se faz ao empresariamento da comunicação com as que se faz ao empresariamento da comunicação. Sem querer entrar no mérito de discutir os efeitos nefastos e/ou positivos desses processos, gostaria apenas de lembrar que o primeiro aspecto a ser observado para um melhor entendimento da relação mídia/educação privada deve levar em conta um fato óbvio: esta relação tem como mediação o fato de os dois institutos serem empresas comerciais numa sociedade capitalista (ou quase) e democrática (ou quase). O que isto significa? Significa que para o educador da área privada se posicionar da melhor forma possível frente aos órgãos e profissionais de comunicação deve saber como funciona a “empresa” jornalística, conhecer suas características básicas e entender o seu vocabulário específico. É com estas ferramentas que ele poderá não apenas se “defender” dos efeitos perversos que ação jornalística tem o costume de produzir quando trata dos temas que afligem a iniciativa privada em educação, mas, principalmente, encontrar formas de interação que o tornem um manipulador, ainda que parcial, da agenda midiática. A empresa jornalística, portanto, é o tema do próximo artigo. Até lá.