17/1/2005
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País investe pouco no incentivo à leitura
> A Notícia, 16/01/2005 - Joinville SC
País investe pouco no incentivo à leitura Para escritor Deonísio da Silva, no Brasil o livro disputa orçamento com o leite e o pão
Marlise Groth
Joinville - Literatura catarinense, revelação de novos talentos e o mercado editorial foram alguns dos temas que pautaram a conversa do escritor Deonísio da Silva com o público durante sua estada em Joinville, recentemente. O escritor, que mantém coluna semanal na revista "Caras" e no site "Observatório da Imprensa", bem como no "Jornal do Brasil", é natural de Santa Catarina e veio do Rio de Janeiro ao Estado, em novembro, participar da cerimônia de entrega do Prêmio Döhler de Literatura. Segundo ele, faltam investimentos na área da literatura que proporcionem a divulgação e valorização dos escritores locais. Projetos com dinâmicas simples, que aproximem autores das escolas e ofereçam obras de qualidade, a preços acessíveis ao público. Do seu ponto de vista, não é possível cobrar leitura num país em que a massa mal consegue recursos para garantir o pão e o leite de cada dia. Também não é possível cobrar total responsabilidade da escola na formação de leitores, uma vez que os exemplos começam em casa. Sobre a onda de plágio que assola escolas e universidades, Silva é enfático ao anunciar uma geração de derrotados caso a situação não se inverta. De acordo com o escritor, o erro não é do professor e, sim, do sistema que incentiva a facilidade em detrimento da ética. O aluno que compra um trabalho, engana a si mesmo. No dia em que chegar ao mercado para fazer um teste, caso não tenha se preparado, já é um pré-derrotado. Está cavando a própria sepultura. O Brasil tem ainda tudo muito concentrado: a riqueza, a universidade e a leitura. Em razão dessa concentração, as tiragens são pequenas, sempre para os mesmos. Não há universalização da leitura A Notícia - Como é que o senhor avalia o concurso desenvolvido pela revista Döhler, em Joinville? Deonísio da Silva - Nenhuma empresa se arrependeu até hoje de apostar no escritor brasileiro, nos livros e na revelação de autores. Uma existência fica marcada pelo apoio de uma empresa. Se promover o concurso outros anos e consolidar o projeto, teremos livros bem escolhidos para publicação e grande afluência de concorrentes. Nesse concurso, foram selecionados três vencedores entre 400 inscritos. A qualidade dos finalistas é impressionante. No Brasil, a Nestlé já fez coisas semelhantes, a Portugal Telecom faz. O Supermercado Zaffari, em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, patrocina o maior prêmio literário brasileiro, que dá R$ 100 mil ao melhor romance. Isso produz, além de bons textos, bom público, fruto de eventos que são oportunidades preciosas de comentar livros, autores, melhorar a dieta de leitura do brasileiro.
AN - Como é que o senhor observa a dieta de leitura do brasileiro? DS - O Brasil tem ainda tudo muito concentrado: a riqueza, a universidade, a leitura. Em razão dessa concentração, as tiragens são pequenas, sempre para os mesmos. Não há universalização da leitura. Um livro que poderia ter cem mil exemplares tem apenas três mil. Poderia custar R$ 5,00, mas custa R$ 50,00 porque a baixa tiragem industrial eleva o custo. Se a gente conseguir fazer edições maiores como no México, no Canadá, ou na Europa, o livro vai ficar bem mais barato. Outro problema é que a renda também está concentrada. No Brasil, a pessoa não compra livro como um item a mais de sua dieta cultural - vai ao cinema, ao teatro e também compra livros. Aqui, o livro disputa orçamento com o leite e o pão.
AN - Como o senhor vê a proposta do governo federal e dos empresários do setor livreiro de diminuir impostos sobre o produto? DS - O governo federal é o maior comprador individual de livros do mundo. O Rio Grande do Sul é o Estado que melhor cuida de seus autores, de seus livros. O Instituto Estadual do Livro faz o lançamento de autores locais, dá uma atenção especial nas escolas, e promove a feira do livro, que é a maior e mais tradicional do Brasil. Há alternativas que são exemplos de como as coisas estão melhorando, mas elas ainda não são suficientes para a democratização da leitura. O Brasil só vai ter mais leitores quando dividir melhor a renda, quando o ensino tiver melhor qualidade. Em outros países, assim que uma editora lança um livro, cerca de dois a dez mil exemplares se destinam às bibliotecas. Aqui, as bibliotecas não compram livros. Vivem de doações, de campanhas para angariar obras, como se o livro fosse uma esmola. É muito raro biblioteca com orçamento e verbas próprios para atualização de acervo. E em nosso sistema isso é evidente porque, afinal, biblioteca só dá prejuízo. Você tem de colocar títulos à disposição do público, mas você tem de comprar o livro para ele estar lá. A gente tem de mudar a mentalidade dos órgãos públicos e das universidades privadas. Precisamos de bibliotecas atualizadas.
AN - Como o senhor vê a relação do plágio com a leitura e a Internet? DS - Os professores não estão errando. É um conjunto de circunstâncias sobre as quais pouco podemos fazer. O professor recebe um aluno que vem de uma família que não lê. A escola é um local de luta solitária para fazer a pessoa ler. Se você recebe um aluno de uma família que lê, a situação é diferente. A Internet bagunçou o coreto por dois motivos. Primeiro: Professores são mal pagos e têm uma sobrecarga muito grande para corrigir todo o material que recebem. Precisariam de muito mais tempo para verificar a existência de plágio ou não. Há jornais que anunciam venda de monografias, de dissertação de mestrado, de trabalho. Comercializaram a produção intelectual. O aluno que compra um trabalho, engana a si mesmo. No dia em que chegar ao mercado para fazer um teste, caso não tenha se preparado, já é um pré-derrotado. O aluno que compra trabalho ou baixa da Internet está cavando a própria sepultura. Enterra a si mesmo. O caminho do saber precisa da relação bunda-cadeira-hora. Se ela não existir, não há aprendizado. A outra coisa é que o livro é a figura solar do ensino. Por melhor que seja o professor, é preciso o apoio do livro.
AN - E como anda a literatura em Santa Catarina? DS - É uma literatura exuberante. Tem bons representantes no conto, romance, poesia, ensaio. O que está faltando é aquele cuidado que o Rio Grande do Sul já tem: a valorização do autor local. Não por ele ser local, mas porque, quando temos autores da qualidade, o catarinense deve ser o primeiro a reconhecer esse valor. O autor não pode ser reconhecido lá fora e depois em seu Estado de origem. Temos Salim Miguel e uma poetisa muito boa, que a Maria Odete Olsen, uma apresentadora de programa na televisão. Temos a Eglê Malheiros. O jornalismo sempre forneceu bons autores para o Brasil. Basta ver que Machado de Assis escrevia em jornal, como Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes Campos. Autores de prestígio e relevo tiveram um treino, uma disciplina, um contato sistemático com o público, e isso repercutiu em suas obras.
AN - Em seu caso também foi assim? DS - Escrevo em jornais semanalmente há 12 anos. Estou no "Jornal do Brasil" duas vezes por semana, na revista "Caras" toda a semana, com a coluna de etimologia, e no "Observatório de Imprensa", na Internet. Minha coluna é reproduzida depois em outros portais e jornais. O jornal te dá, primeiro, o que o Rivelino ganhou no Corínthians. Rivelino jogou futebol de salão e, depois, foi para o futebol normal. Aprendeu a dar um drible num espaço muito curto. Todo o mundo se admirava daquilo que ele fazia, porque tinha o espaço do futebol de salão. E a imprensa faz exatamente isso. Tenho de escrever uma história curta, com começo, meio e fim, num espaço pequeno. E isso dá uma disciplina, além do treino, a aplicação. Não vale apenas a inspiração.
AN - Como é escrever para o "Observatório de Imprensa" e, ao mesmo tempo, para a revista "Caras"? Meios com públicos tão distintos? DS - No "Observatório de Imprensa", entrei a convite do jornalista Alberto Dinnes, uma referência no Brasil. A proposta lá é criticar a imprensa, criticar para crescer, dizer o que está bom, o que está ruim. Sem arrogância, uma espécie de autocrítica. Não vejo incompatibilidade de escrever para o "Observatório", na "Caras" e no "Jornal do Brasil". São públicos distintos. No começo, fui questionado por meus colegas de "campos de concentração de universidades", mas respondi da forma como vejo. Ou seja, a de uma presença benéfica. Não por ser eu, mas por "Caras" ser uma revista de pauta superficial, mas que oferece um texto de qualidade toda a semana. Não escrevo de um jeito para o jornal ou site e outro para "Caras". Faço o melhor que posso e, assim, conquistei leitores que de outra forma não me leriam. Afinal, tem gente que só lê "Caras": no consultório do dentista, do médico, no cabeleireiro. Aí, entra uma alternativa de leitura, a história das palavras. É uma outra dieta de leitura. Gosto de meu trabalho porque ele me ensina a modéstia, o erro, me dá a oportunidade de corrigir o erro, enquanto o livro é definitivo.
AN - O senhor está lançando seus livros por uma editora nova no mercado. Qual o motivo da escolha? DS - Sempre fui editado por grandes editoras, mas notei que a editora pequena é mais eficiente. Mas não fiquei na Girafa só porque ela é pequena. Fiquei por uma história de amor e amizade, de amor ao livro. O Pedro Paulo de Senna Madureira é alguém que tem amor ao livro, amor ao projeto editorial. Foi meu editor nos últimos 26 anos em todas as editoras por onde ele passou. Quando saiu da Siciliano para fundar sua editora, fui junto. Fizemos um contrato justo. Num ano, já lançou dois títulos, um por semestre. No próximo, lanço um romance novo e, na seqüência, sai a oitava edição de "Avante Soldados: para Trás", que acabou de ser publicado em Portugal.
AN - Como é ter a produção constantemente reeditada? DS - É muito importante. Mas tenho livros que não se medem pela edição. É o caso de "A Cidade dos Padres". Vendeu muito em três editoras de forma simultânea. Mas não me preocupo com as vendas. Sou um autor com bom desempenho nas livrarias. No entanto, algumas obras das que mais gosto não têm tanta aceitação. Um exemplo é o romance "Tereza", que já foi transposto para o teatro. Fala sobre a Tereza d'Ávila. Vendeu apenas uma edição em cinco anos. Então, não sou daquele autor que só fala do que vai bem. Para mim, é um mistério que um romance como "Tereza", que de meu ponto de vista é o segundo melhor livro dos 30 que publiquei, não tenha vendido.
AN - E qual obra o senhor considera como sua obra-prima? DS - É o "Avante Soldados: para Trás". Não penso isso porque ganhou o prêmio Casa de las Américas, tendo como jurado José de Saramago. É que a gente sabe quando acerta. E o leitor desse livro é um leitor culto, refinado, que vai buscar uma história de amor que se passa durante a guerra. Mas meus livros infanto-juvenis também vendem bem. Sou um autor que nenhum livreiro se arrepende de ter nas prateleiras.
AN - E como entender o leitor? O senhor escreve seus textos focando determinado público? DS - O leitor é um sujeito cheio de mistérios e sutis complexidades. Você não sabe o que ele quer. Ele entra numa livraria e o que o leva a escolher um livro e não outro é mistério. Arrisco algumas hipóteses. Acho que meus livros de etimologia vendem bem porque a pessoa viu parte daquilo na revista "Caras" e já sabe parte do assunto, que é um livro para consulta, para quem não se contenta com o dicionário.
AN - E o que dizer para o escritor que está começando hoje? DS - Não é fácil. Nunca foi, nem antes e nem hoje. Mas também nunca foi tão fácil. Quando surgi como escritor, havia a ditadura militar, censura, dificuldades em se fazer um livro. Fui devolvido por cerca de 30 editoras com meu primeiro livro. Fui preso ao escrever meu primeiro conto. Fui condenado por motivos ideológicos, incurso na Lei de Segurança Nacional e Lei de Imprensa. Cumpri a pena em liberdade, mas fui condenado. Depois de todos esses tropeços, o livro "Exposição de Motivos" foi publicado e já foi até transposto para a televisão com o nome de "Relatório Confidencial". Foi premiado pela Biblioteca Nacional. Ganhei 20 importantes prêmios literários brasileiros e também um internacional, que é o Casa de las Américas. Prêmios não ensinam a escrever, mas chamam a atenção e dão destaque. Meu conselho é escrever e ler sempre mais. Em algum momento, um poder que desconhecemos e que também está no terreno do mistério faz aquilo acontecer. Não interessa a dificuldade que você venha a ter. Você acaba vencendo. O livro é invencível. Os autores são presos, perseguidos, odiados, algumas vezes anulados, maltratados, mas o livro fica para sempre. Às vezes, até mesmo contra o autor, porque quando você lança uma obra, perde o controle daquelas idéias sobre as quais escreveu.