10/10/2002
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Estratégias para situações de agressividade - Luciane Nardino, psicóloga
Síntese do curso realizado por Luciane Nardino, na sede do SINEPE/RJ, em 10 de agosto de 2002
Estratégias para Educação Infantil em situações de agressividade do aluno
Objetivo do curso:
- O professor enquanto multiplicador a partir do conhecimento teórico sobre o assunto. - Tornar a teoria psicanalítica compreensível no que ela pode nos servir no campo da Educação.
Tema principal:
Agressividade.
Algumas considerações, segundo Gerald J. Ballone:
Existem fatores individuais, familiares e ambientais.
Individuais – temperamento, sexo, condições biológicas e cognitiva Familiares – interações e modelo educacional Ambientais – televisão, videogame, escola
Estatisticamente, segundo seu relato ,a agressividade manifestada na pré-escola infelizmente evolui de forma negativa. È preciso esclarecer os limites entre travessuras da infância e transtornos de conduta ( reação vivencial, hostis, desproporcionais aos estímulos – dificuldade adaptativa). As características temperamentais ainda em bebês são indicadores de uma tendência a conduta agressiva, pois demonstram uma maneira particular de se relacionar com o mundo. Essas crianças tendem a criar estresse na relação com a mãe – início do desenvolvimento de condutas agressivas (Pattersom, Dishiom e Reide, 1992). Algumas pesquisas procuram relacionar a atividade da enzima MonoAminaOxidase (MAO) plaquetária diminuída com baixa capacidade de controle dos impulsos. Níveis baixos do neurotransmissor serotonina também foram relacionados a alguns comportamentos complicados, como por exemplo o suicida, piromaníaco, agressivo e cruel. Atrasos mentais puderam ser relacionados com vínculo desorganizado na idade de 18 meses e com a falta de cuidados da mãe (Lyons – Ruth, Alperm e Repacholi, 1993) Experiências passadas(memória de eventos hostis) criariam tendência a reagir de maneira mais hostil, interpretar situações ambíguas ou neutras como ameaçantes levaria a responder de maneira agressiva. Os meninos já se apresentaram mais agressivos que as meninas, com as mudanças sócio-culturais este quadro vem mudando. A hipótese de maturidade psicoemocional se estrutura na observação de defasagem dos meninos em relação as meninas na linguagem e nas habilidades motoras. As meninas apresentam-se mias cooperativas que os meninos segundo Prior, Smart Sansom e Oberklaide,1993. As mães pouco afetivas significam situação de risco, gerando predisposição a condutas agressivas. Depressão materna, psicopatologia materna. Os pais reforçam essa tendência com atitudes teatrais, histéricas, descaso, permissividade, pais com traços anti-sociais, conflito conjugal, são fatores ambientais de estresse. Resume-se muito a família a relação mãe e filho, quando percebemos que a coesão familiar demonstra resultados bastante positivos. Alguns estudos, mostram que os meninos menos problemáticos são aqueles que tem um pai que promove a coesão familiar e uma mãe que pouco crítica a postura desse pai (MacHale e Rasmussem,1998) A televisão para alguns reforça a tendência agressiva para outros serve como auxílio a compreensão e interpretação da consciência (Huesmanm, Erom, kleim et al.,1983) Vínculo – segurança Escola – início de socialização (situação nova, novas pessoas, competição)
“O comportamento infantil resulta portanto da falta ou fracasso das estratégias pessoais para organizar respostas melhores adaptadas à necessidade de conforto e segurança que tem a pessoa (a criança) diante de situações estressantes.”
Agressividade natural – atitude adaptativa, normal, aumenta com a idade, da forma física e instrumental passa para forma verbal e hostil. Dos 4 aos 6 anos – nojo, choro, e birra em relação aos pais Dos 6 – 14 anos – competição (Cerezo, !997)
25 a 50% das crianças com comportamento agressivo reduzem sua agressividade (Hinshaw,Lahey e Hart,1993), esta diminuição acontece entre 5 e 8 anos. Diferente entre meninas e meninos (Ladde e Burgess, 1999)
A agressividade leva a rejeição por parte da sociedade, e essa rejeição acaba gerando mais agressividade.
Ballone, GJ _ Violência e Agressão; da criança, do adolescente e do jovem – in PsiqWeb Psiquiatria Geral< internet, 2001 –disponível em Htp://sites. Uol.com.br/gballone/infantil/conduta 2.htm
Segundo a psicanálise, a hipótese de uma “pulsão de agressão” teve origem numa conferência dada por Alfred Adler em 8 de junho de 1908. Para Freud o que Adler chama de pulsão de agressão é a nossa libido ( energia pulsional). O sadismo é uma forma particular de agressão ligada ao sofrimento infligido a outrem. Uma pulsão é aquilo que torna o sujeito inquieto (uma necessidade insatisfeita) A pulsão contém: a necessidade, a possibilidade de prazer e algo de ativo (a libido) Surge portanto a angústia como um estádio da libido insatisfeita gerada pela repressão. A pulsão tem portanto um caráter “pulsional” impulsivo, aquilo que podemos descrever como a capacidade de deslanchar a motricidade. O retorno sobre o eu é entendido como masoquismo. Uma “tendência a destruição” aparece então “dirigida contra o mundo e outros seres vivos”.3, (dicionário de Psicanálise, Kaufmamn)
Conseqüências no social:
“É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida. No entanto, ao formular qualquer juízo geral desse tipo, corremos o risco de esquecer quão variados são o mundo humano e sua vida mental.” Obras completas de Sigmund Freud, vol. XXI, Texto: “ Mal estar na civilização”, pág. 81
Comentários:
O que é limite?
A agressividade voltada para o outro surge como fato destacado, percebido na falta de “limite”. Nos primeiros anos de vida é natural e aceitável que a criança responda com impulsos agressivos aquilo que lhe contraria, lhe incomoda, quando o adulto não intervem de alguma forma ensinando-lhes novas possibilidades de reação. No entanto, para Psicanálise o limite é algo que ultrapassa uma noção topológica. Diz respeito as relações, ao desenvolvimento da personalidade.
Como isso se dá ou se percebe?
Vamos pensar no ser humano, na sua fragilidade, na sua dependência primordial e incapacidade de se proteger no primeiros anos. Desde o seu nascimento várias emoções podem ser experimentadas pelo bebê, que na sua interpretação lhes dá várias conotações ao que sente. Frustração, satisfação, medo, incompreensão, dor, etc são sentimentos vivenciados e a maneira como quem cuida do bebê corresponde a esta demanda parece primordial no entendimento daquilo que demandamos. Podemos então entender e pensar a pulsão de agressão a partir desta relação.
Sim, então se tudo começa nas relações primordiais a família adquire papel importante e fundamental no entendimento desta dinâmica e nas intervenções a serem realizadas também.
Porém de que forma?
Se pensarmos no universo escolar , podemos dizer que dar conta da diversidade é algo extremamente complicado, a medida em que não se trabalha individualmente, somente em grupo e geralmente não muito pequenos. No entanto, se o educador não tiver esta visão de multiplicidade de comportamento e necessidades de diversas maneiras de atuar e constante reciclagem dos atos e pensamento, o trabalho parece impossível a medida em que trabalhamos com seres humanos. Estar atento as diferenças, intervir no dia-a-dia sempre mostrando novas maneiras de lidar com a situação, contactar os pais, colocá-los a par do que acontece, saber como a criança se comporta em outros ambientes, tomar ciência de possíveis momentos de dificuldade na vida pessoal, trocar idéias com especialistas que estejam acompanhando a criança, parecem atitudes bastantes produtivas. Sabemos que muitas dessas ações são pertinentes a especialistas como psicólogos e orientadores educacionais, portanto se o professor puder ter uma visão diferenciada do problema saindo do lugar de apenas alguém que está ali para passar conhecimento para o seu aluno ,e passar a ter uma atitude onde a transferência entre professor e aluno possa ser lembrada como algo que acontece com freqüência e muitos sentimentos estão implicados nesta relação como em qualquer outra relação. Tal percepção, tal atitude poderá trazer resultados a medida em que se encontre um ponto de entendimento.
Comentários gerais:
A agressividade pode se manifestar de diversas formas. Contra si, contra o outro, em relação as atividades, até mesmo através de um desenho. Muito ligada a um sentimento de rejeição, sentimento este que se confirma a todo momento na sociedade, cada vez a criança agride mais , esperando que desta forma o vejam o entendam. O acolhimento parece um bom caminho para se chegar a essas crianças e entender o que elas estão demandando, à família ou à escola, mas que lhe é particular e tem relação com todos que a cercam. A agressividade surge como sintoma. Sintoma que incomoda porque desafia o outro. A escola no lugar de um terceiro em relação a família é uma possibilidade de que através das relações sociais, a criança adquira uma nova visão sobre seus sentimentos e realizações. A privação é inevitável. Até mesmo a mãe que tenta aplacar todos as necessidades de seu filho, não consegue. Porém, algumas relações demonstram uma falta de sintonia além do necessário, que na impossibilidade do diálogo passa a ser traduzido em sentimentos negativos e para alguns deixa marcas. Enfim, muitos são os motivos que uma criança pode ter para estar demandando uma intervenção ao seu sintoma. Cabe ao adulto estar atento e ter bastante sensibilidade ao agir.
Mensagem ao professor:
“ No final de tudo, num dia muitas vezes cansativo, porém um tanto quanto produtivo e gratificante, talvez fique a ùnica certeza de que o que vale é a mais pura intenção em ajudar o aluno a vencer os seus obstáculos, as suas dificuldades e se ainda isto não for possível, porque sabemos bem, nós professores envolvidos no dia-a-dia, na relação, fica difícil separar as coisas e é necessária a intervenção de Outro, que possa na neutralidade enxergar desta forma e intervir, para que um caminho para solução possa ser produzida. Como nas nossas relações primárias, a falta deste outro pode formar um abismo de tal forma que o vazio ou a completude se instale e um certo caos apareça enquanto sintoma. A agressividade pode ser um deles.
Niterói, 20 de agosto de 2002 Luciane Maria de Castro Nardino
Lunardino@ig.com.br Tel. 2711-8147
Referências bibliográficas:
Freud, Sigmund. Obras Psicológicas Completas. Volume XXI Textos: O futuro de uma ilusão. Caps. I e II O mal estar na civilização
Winnicott,D.W.Textos selecionados da Pediatria à Psicanálise, 4ª edição, editora Francisco Alves Parte 2 A observação de bebês em uma situação estabelecida(1941) Parte 3 A defesa manáca(1935) Desenvolvimento emocional primitivo(1945) Agressão e sua relação com o desenvolvimento emocional(1950) A tendência anti-social(1956)
Dicionário enciclopédico de psicanálise – O legado de Freud e Lacan – Jorge Zahar Editor- editado por Pierre Kaufmann Agressividade – pág. 18,19 e20
Revista Nova escola/138 dez00 Reportagem: Gestão escola, Marli André
Revista Nova Escola/113 jun98 Reportagem: “Essa menina é uma fera...”
Tendelarz, silvia. De que sofrem as crianças, livraria Sette Letras Ltda, 1997
Dor,. Joel. O pai e sua função em psicanálise, Jorge Zahar editor, RJ